O texto de hoje não é tão ameno quanto o de ontem ... Ontem relaxamos aqui , hoje falarei de algo sério , que me incomodou muito e que queria dividir com vocês ... O texto é grande mas peço que leiam pois realmente preciso dividir isso com vocês meus amigos ...
Em menos de quatro dias , estive em duas realidades opostas de Emergências de Hospitais . Estive com a avó do meu marido no Hospital Geral de Bonsucesso no sábado dia 02-07 e com meu pai no Barra D'Or no dia dia 05-07 . É de impressionar as diferenças . No Hospital Geral de Bonsucesso ,chegamos e o encontramos em greve . Mesmo assim a emergência funcionava . Fizemos a ficha da vó e entramos numa sala fria , feia e lotada . Tínhamos que esperar ali . Quase duas horas depois fomos chamados . Entramos numa sala feia , fria , chão de cimento batido . Na sala duas médicas atendiam a dois pacientes diferentes na mesma mesa . Para verem se vovó tinha febre , ao invés de termômetro ( coisa tão barata e que nós médicos tentamos tanto ensinar as mãezinhas que só se pode dizer se teve febre ou não com o uso deste ) , foi usado a palma da mão . Isso mesmo , a médica , que não tinha acesso a um termômetro na hora , colocou a palma da mão na testa da vovó e me disse na maior tranqüilidade que vovó estava sem febre . Depois nos mandou tirar um Rx , fazer um exame de sangue e colocar vovó no soro . Vovó estava sentadinha numa cadeira de rodas que conseguimos lá , toda de ferro , sem nenhum estofamento . O calor da sala era grande e dividíamos espaço com as pessoas que iriam passar por sutura ( toda ensangüentada ) , com uma criança atropelada , com uma em crise de depressão profunda que só fazia chorar , digna de pena . Para levar vovó ao Rx , tínhamos que sair do corpo do hospital , empurrando aquela cadeira que não via óleo nas rodas há uns bons anos , e ir para uma sala do Rx . Depois fomos para uma salinha onde se colheu o exame de sangue ( a única coisa que foi feita com todos os padrões de perfeição naquele lugar , aliás gostaria de elogiar as duas enfermeiras que lá estavam que eram pessoas boníssimas , carinhosas e atenciosas ! ) . Depois fomos colocar o soro na vó. A enfermeira , extremamente antipática , riu da minha cara quando perguntei se ela não arrumava um travesseirinho para colocar nas costas da vovó que já reclamava pois a cadeira de rodas machucava com seus ferros duros em contato com suas costas frágeis . Tivemos que esperar o soro correr e quando chegou o exame , entregaram o exame errado para nós . Quando entregaram o exame correto , a médica disse que não iria internar , mesmo vovó não se alimentando há 3 dias . Insistimos pois não conseguíamos fazê-la comer em casa e ela disse que iria tentar uma vaga para internação .Mas disse que seria difícil pois como estavam em greve e a emergência estava lotada , teria que esperar alguém sair para poder internar vovó . Quando chamou minha cunhada para mostrar a emergência , minha cunhada chegou a conclusão que seria até desumanidade deixar vovó ali , naquelas condições, pois não teria condição de ficar acompanhante e estava tão lotado que seria até perigoso . Tivemos que trazê-la de volta para casa , mas ficamos lá por aproximadamente 7 horas até termos alta . Com meu pai vi o oposto . Chegamos no Barra D'Or , uma linda recepção de mármore e duas simpática funcionárias , com fones de ouvidos , "nos receberam" . Fizemos a ficha e mandaram que nós aguardássemos sermos chamados na sala de espera . A sala é tão luxuosa que me senti num hotel , ou num hospital americano . Primeiro havia uma tv de umas 60 polegadas ligada , distraindo os pacientes . Numa salinha que é separada desta por uma parede de vidro , encontramos 3 máquinas uma de refrigerante , uma de biscoitos e outra de bebidas quentes ( café , chocolate , capucchino ) . Sentamos na sala ,com cadeiras estofadas e em minutos chegou uma outra paciente trazida pelo maqueiro que usava fones de ouvido para se comunicar com a recepção , empurrando uma bela cadeira de rodas toda estofadinha , maciazinha , do próprio Barra D'Or . Aguardamos não mais que dez minutos e fomos chamados . Seguimos o médico , todo bem vestido e entramos no box de atendimento dele . Ao lado uma maca para exames , com lençol de papel descartável . Ao fundo uma
banqueta com um laptop ligado ao serviço de Rx do Hospital , onde víamos o Rx de coluna vertebral de algum paciente . Fomos atendidos com toda atenção. Foi pedido a meu pai para fazer um Rx e tomar uma injeção intra venosa . Fomos levados pelo médico para uma sala onde haviam 6 gorduchas poltronas bem confortáveis , com oxigênio , vácuo e ar comprimido para cada uma delas . Meu pai aguardou uns 5 minutos e surgiu uma enfermeira que trouxe o medicamento , colocou um scalpo no papai e infundiu o medicamento . A delicadeza chegava a gritar aos meus olhos o contraste da sua colega no sábado anterior . Fomos então enviados a sala de espera , onde fomos chamados para meu pai fazer o Rx . Rapidamente ele fez o Rx e em menos de 5 minutos o clínico geral chamou meu pai para avaliar o Rx . Graças a Deus não deu nada . A sala do clínico , com maca de lençóis de papel , negatoscópio funcionando , bem ventilada , chão de mármore , limpa parecendo até esterilizada . Em menos de 1 hora , da hora que chegamos até a hora que saímos tudo correu perfeito . Por que estou contando isso ? Por que acho que ninguém merece passar pelo que minha vózinha passou . Acho um verdadeiro absurdo as condições que estão nossos hospitais públicos . Acho que algo tem de feito mas feito de verdade , pois saúde é obrigação do Estado . Meu pai teve esse atendimento maravilhoso por ter um plano de saúde bom , que ele paga bem caro . Mas o certo seria o governo dar esse nível de atendimento , não há necessidade do luxo que há no Barra D'Or , mas há necessidade do mesmo nível de atendimento . Com meu pai , senti-me num filme ou num seriado médico americano , com a minha avozinha me senti num hospital de 4º mundo . Acho que os médicos que trabalham nesses lugares também tem de contribuir denunciando as coisas que estão faltando , para que a população possa pressionar os governantes e para que a população saiba que a culpa não é dos meus colegas de profissão e sim dos governantes que pegam o dinheiro da saúde e colocam em contas na suíça ... Tenho amiga de blog , que virou amiga de vida real , ela sabe de quem estou falando , cujo pai trabalha num grande hospital do Rio , que por sinal está em greve para ver se algo melhora . Ele bem sabe que nossos governantes desviam desavergonhadamente o dinheiro destinado a saúde para suas próprias contas . Ele bem sabe que a população está passando por necessidades por falta de vergonha na cara de uns ou outros . Mas , enfim , acho que todos nós temos que nos unir e pensar bem nas próximas eleições em quem votar . Falo disso aqui , pois essa é a mesma realidade em qualquer cidade grande ou pequena do nosso país e podemos mudar isso caso tenhamos mas consciência na hora de votarmos nas próximas eleições . Espero de coração que nenhum de vocês ou de seus familiares precisem passar pelo que minha avó de 89 anos teve que passar no último dia 02 . Espero que meus filhos não precisem passar por nada disso , nunca , pois acho uma situação de humilhação profunda .